Falta de UTI no Hospital da Criança
O insistente gemido na alvorada anuncia as trevas ao amanhecer. O caos urbano está armado. É Menos um dia de glória aos ipês amarelos, que adoçam a estação da penúria nas filas da saúde pública.
Desfilando pelos corredores a fora, um homem clama a misericórdia de outros iguais a ele, que não podem fazer nada. É inválido o meu e o seu pesar, pois nunca sabemos chorar como pais. Vivemos na incerteza, como filhos pródigos de Deus.
Sendo Lucas, ou João, a tolerância é a mesma, e as repostas são tão negativas quão redundantes.
As sepulturas estão ali abertas, e parecem tão sedutoras! Somos todos anulados, pela falta de palavras, vendo o coma de antes, ser herdado pelos nossos filhos. Mas o que nos dizem quando faltam as UTIS? Há os que digam que elas logo chegarão. Ainda que eu não acredite, sigo a vida, o que me resta é navegar.
É árduo ser homem nessas horas! Homem para votar! Homem para ouvir, e ser obrigado a concordar que desconheço os meus direitos. Trabalho para viver, e sobrevivo sem pensar como deveria ser.
Abandonado á ausência de recurso está um pai. Pai o qual repudia a própria sorte. Sorte que não deu a ele um bom plano de saúde. O que são dezessete horas de desespero? Visto que até mesmo os bancos são escravos da escassez do tempo.
Compadecimento, abraços e condolências, talvez façam alguém sentir-se melhor. Entretanto, caridade e ausência de ações não ressuscitam novamente lázaro. O comodismo só ajuda enterrar mais algum Douglas.
Ainda me dizem que é cedo para voltar atrás, insistem em dizer-me que devo esperar e olhar com mais atenção a minha volta.
Certamente verei mais coroas e menos flores. Ou será que verei menos pirâmides, e não sentirei mais essas dores? Eternas dores de parto por ter gerado filhos, que vão depender da saúde pública.
Emanuelle Rodrigues
quarta-feira, 29 de agosto de 2007
A agonia da maioria
Postado por Emanuelle Rodrigues às 08:57
Assinar:
Postar comentários (Atom)

0 comentários:
Postar um comentário