A Frieza do Divã
Neste divã sinto a presença de todas as cores da cidade, e um lugar escuro é o clímax para o relato das insanidades, rostos que não me vêm, pensamentos, línguas e temores, que não crêem na minha existência. Vejo que alguém tem um medo maior, então apago a luz, pois a minha insônia é banal. Meus mitos heróis e gnomos dançam valsa na janela das casas de outros filhos, dormem e dormem, estão flutuando em sonhos irrealizáveis ou suando frio dentro de seus pesadelos. As bestas-feras da noite amedrontam minhas bonecas, que carregam o peso do seu pecado, o preço do sorriso eterno, o amor mais maquiado, entre milhares de faces odiosas das ruas que cercam meu apartamento.
Pinga e pinga torneira semi- aberta, as fadas chegaram com o meu dinheiro, só não arranco os outros dentes porque gosto de sorrir para o meu espelho, que sempre está calado, nunca me responde, nem me dá consolo, apenas relata a face de um pedaço de carne em eterna decomposição, também chamado de corpo humano.
Não apague a luz, a rua me amedronta, apedrejem a coruja que não silencia o bico e atormenta a vida do bêbado que tenta cochilar ali na praça. Ano que vem seremos pessoas melhores, juramentos que se limitam a parecer reais somente em passagem de ano. O dia em que estive triste dei uma volta na quadra, o dia em que estive feliz não sai da sala de aula. Ocupações, preocupações, tudo que alimenta o Divã, e faz sua ausência um terror absoluto.
O homem atrás daquela mesa não me olha nos olhos, isso me faz triste. Vejo que tudo o que traz amargo língua é relativo a perdas frustrações e planos inacabados. Sinto vontade de correr na chuva, talvez sentar em um banco de praça molhado, como se pudesse resgatar em uma tarde os anos que passarão diante dos meus olhos e viver ignorando os anos que passarão diante dos que me olham e tentam me rotular, sou um ponto neutro junto a uma teoria incompleta, eu ainda posso viver, espero o galo cantar e vou viver . Respiro, logo vivo!
Mas o dono do divã não me olha, eu choro e rio, tropeço nas palavras, ameaço mudar a expressão, ele não mexe as mãos, sinto mais sozinho que em minha própria amargura, sinto-me isolado da sanidade do homem de carne e osso, mas aquela sensação de dever cumprido, ou talvez um vazio na carteira pois pago para confessar minhas falhas e concluo que não sei resolver nada com ajuda da frieza do divã porque não quero resolver nada. A incompreensão me faz poeta!
Emanuelle Kaliny Rodrigues
quarta-feira, 15 de agosto de 2007
A Frieza do Divã
Postado por Emanuelle Rodrigues às 09:40
Assinar:
Postar comentários (Atom)

0 comentários:
Postar um comentário