Medo
Sentir, estar e vivenciar novos temores, é nada mais que estar apavorado pela chegada do poente, que são as cortinas de horrores misturadas às pitadas de brilho que fazem do medo um sentimento, por ora considerado inútil, o mais indispensável dos pudores do ser humano.
Por que se sente medo? Vício, o medo é o vício mais presente em todos os cotidianos, cruéis, famintos ou requintados. Desde o ventre da mãe, seja ela desregrada, ou cuidadosa, o feto ao sair daquela cobertura maternal tão confortável, está apto para uma vida a sós com seus problemas, o estar sozinho é o primeiro medo, agora ele é individuo, a invulnerabilidade uterina, agora é passado.
Medo do escuro, medo do abajur de palhaço, medo do sonho bonito, medo do pesadelo real, medo do molhar os lençóis com urina, medo da perda de peso, medo da anorexia da alma, medo da monotonia, medo da instabilidade, medo das primeiras perdas desde os dentes até o a coloração dos cabelos, medo do parecer fútil, medo do ser utópico, medo do ser humano quando a realidade só leva a amar com a razão, medo do claro, medo do vago, medo do novo namorado, medo do insano marido, medo do aristocrata, medo da paisagem, medo do retrato, medo? Sempre presente medo, sua ausência entorpeceria de tédio a vida.
Temer é o instante, temer é o respirar, temer é o sentar em um banco de praça para refletir, o chamado analisar. Analisar o feito mal feito, ou o feito que ainda vai ser realizado, temer é coisa vã, mas não é coisa má, temer pode ser ruim aos olhos do impulsivo, mas é o equilíbrio de um sábio e discreto individuo, o que faz dele um cidadão sem razões tão claras quanto à existência de um código penal. Tem-se medo dos grilhões eternos vindos do pecado original de adão, porém mais medo de uma liberdade tão imposta pela urna eleitoral, pois a liberdade é cruel demais com aqueles que não têm consciência do que ela pode causar ao que não tem o que temer.
O medo é como a sinalização regular de transito a exemplo do: Não estacione, cuidado com a lombada, curva acentuada, pare! Pois a vida é frenética demais ao homem comum, por mais limitadas sejam as suas viradas e inconstâncias, sempre os obstáculo edificam uma nova barreira a ser ultrapassada, engatinhado, ou correndo desesperadamente, é para isso que serve o medo para colocar arreio e freios na invulnerabilidade e individualismo tão comum nos seres humanos.
Humanos os quais estão tão envaidecidos e obstinados pela vontade de crescer que acabam sendo lançados nas paredes e muros do fracasso, pois estão embriagados demais de autoconfiança e não enxergam a sinalização regular imposta pela moral e pelos bons costumes, porém o medo de errar novamente faz o individuo acender a luz e resolver o problema às claras. Medo é o mais útil dos pudores, pois é o que está mais próximo do consciente e do racional.
Emanuelle Kaliny Rodrigues
quarta-feira, 15 de agosto de 2007
Medo
Postado por Emanuelle Rodrigues às 09:42
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