O calar eterno e inevitável
As vozes dentro da fotografia calam-se no domingo, batem em retirada para o descanso tão merecido, correm em direção ao túnel mais próximo ao pote de ouro que a menina levada, danada e oculta escondeu embaixo do arco- íris. Quanto aos homens, estes reencontram seu velho caráter, as inconsoláveis mulheres procuram os diários de páginas amarelas da infância. Humano ou animal, chorando ou comemorando o trem vai partir com profunda pressa, e sei que essa é a maior das intolerâncias.
Sorrateiramente o dardo da tristeza invade o espírito do boêmio, enquanto a tranqüilidade não deixa a face de uma criança. Enquanto há vida existem as murmurações, apologias e incompreensões, visto que é difícil não saber nada, tampouco é impossível saber tudo, o mudo relataria coisas que o palestrante não disse quando o cego enxerga coisas que só a escuridão da venda podem apimentar e tornar obra de arte.
Já sentados no vagão do isolamento estão os poetas e loucos, desconfiados, matutando inconformados pelo inesperado abandono maternal, atormentados pela incompreensão alheia, atormentados pelas vozes das fotografias, porém vivificados pela esquizofrenia mundana. Poetas e loucos são os bezerros desmamados, são as dores de cabeça das salas de aula, as ovelhas maltrapilhas do rebanho, os filhos bastardos das mães desalmadas.
O Visionário não come grama, porque não sabe pastar cujo verde é pouco para alguém tão acostumado a enxergar o multicolorido. Bato no peito o orgulho, por não ser insignificante, hoje sou herói, amanhã anarquista, porém confiante que não sou nada além de um bárbaro letrado sendo oprimido pelo desconforto de ser diferente. Dói ver o poeta ser chicoteado pela própria visão, creio que a ausência dos óculos escuros torna-se o seu ponto fraco, os raios solares maltratam os olhos, raios os quais são crudelíssimos porque trazem dor e realidade.
Voando pelos trilhos lá vai o trem, que percorre pelo túnel da desesperança, trem o qual anda tão veloz, sinto até meus passos pequenos pelo corredor junto a uma ventania abaixo das minhas costelas. Porém o momento que trouxe sabor a viagem, foi quando algumas mulheres de aluguel se ofertam ao palhaço o porta voz do sorriso e embaixador do sarcasmo, aumentando a balbúrdia das catequistas, catequéticas e catequizadas, em suas casas eram cheias do pudor e de caridade, agora transbordam violência em seus olhares mitológicos, ainda que a fraternidade sempre acompanhasse as senhoras abnegação, estas hoje estão como mutantes a ponto de ataque, são capazes de amedontrar os comunistas que assavam como suíno no Natal os recém nascidos Americanos.
Sendo o homem letrado, analfabeto ou escultor, se tem o mesmo número de linhas para ser descrito, delimitado em seu epitáfio, afinal justiça é justiça, tardia e falha, porém muito bem maquiada. Os epitáfios enfeitarão durante eternidades diversos tipos de jazigos enquanto as coroas apodrecem, virando lixo e adubo, observo que as palavras marcadas na pedra são as únicas ilustres ali durante os séculos e séculos, estavam, estão e estarão expostas nas esquinas, paredes e terrenos baldios na cidade dos pés juntos.
Apitando chegou o trem na linha final, os passageiros descem assoberbados, desembarcam de mãos abanando, pois o maquinista tem pressa, mais fotos precisam perder a voz, a intenção não é macabra, é apenas povoar a Terra dos pés juntos. Pois para silenciar as ideologias eufóricas é preciso enterrar sonhos e pensamentos.
Emanuelle Kaliny Rodrigues
quarta-feira, 15 de agosto de 2007
O calar eterno e inevitável
Postado por Emanuelle Rodrigues às 09:41
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